| Multifocais na mira
Leonardo Akaishi*
Os avanços alcançados pela medicina, nos últimos anos, fizeram com que se elevasse também o nível de exigência dos pacientes ao buscarem tratamento para suas questões de saúde.
Na oftalmologia a situação não é diferente. O paciente com catarata, por exemplo, pensa, muitas vezes, que dispensar os óculos tanto para perto, quanto para longe é conseqüência natural da cirurgia de remoção do cristalino (cirurgia da catarata).
Contudo, para obter uma boa visão para perto e para longe existem duas opções relacionadas à cirurgia de catarata. Uma é a chamada monovisão ou báscula, que permite ao paciente ficar com boa visão para perto em um olho e, no outro, para longe, a compensação é feita automática e imperceptivelmente, na maioria das vezes. Nessa opção é realizado o implante de uma lente monofocal em cada olho, no lugar do cristalino. A outra alternativa é a implantação de lente multifocal no momento de realização da cirurgia de catarata que dá uma visão boa para longe e para perto em ambos os olhos (visão binocular). É preciso alertar porém, que nas duas escolhas há vários fatores aos quais pode estar relacionada a condição de dispensa dos óculos e isto, realmente, não acontece em 100%, das vezes pois há questões como as implicações decorrentes da idade e outras alterações de saúde que exercem influência na visão.
As lentes multifocais para substituir o cristalino nas cirurgias de catarata foram aprovadas, pelo FDA, nos Estados Unidos, em 1999, portanto seu uso é recente. Estudos sobre os resultados das multifocais vêm sendo realizados em todo o mundo comprovando que os níveis de adaptação dos pacientes com as lentes são diferentes. A dispensa dos óculos não é regra com o implante de multifocais, até agora, o que se observa é que acontece em apenas 40% dos casos. Os demais ficaram com visão boa para longe e razoável para perto, ou seja, necessitando de óculos em situações específicas como, por exemplo, uma leitura feita em local de pouca luminosidade ou de material com letras muito pequenas.
Acabo de concluir um estudo que embasou minha tese de mestrado em Ciência da Saúde na Área de Oftalmologia, na Universidade de Brasília, cujo tema da investigação foi "Acuidade visual após facoemulsificação bilateral: estudo comparativo entre lentes intra-oculares monofocais e multifocais".
Nesse estudo científico comprovado com a avaliação de pacientes que se submeteram aos diferentes implantes (lentes intra-oculares monofocais e multifocais), observei que em 75% dos casos de implante de multifocais, os pacientes ficaram com grau equivalente a J1, ou seja, adequação excelente com visão 100% para perto, o que não significa, porém, ficar sem óculos. Observei ainda que as lentes multifocais não são indicadas para implantes em pacientes com diabetes avançado, astigmatismo alto, degeneração macular relacionada à idade e também àqueles que dirigem muito à noite. Alguns pacientes relataram visão com halos noturnos, o que pode dificultar o exercício de dirigir, apesar de que, nos EUA, por exemplo, motoristas profissionais vêm utilizando o implante de lentes multifocais com nível aceitável de adaptação.
É relevante deixar claro que a lente multifocal implantada em cirurgia de catarata, mesmo que o paciente tenha todas as condições para isso e faça essa opção, pode ser substituída posteriormente pela monofocal. Além disso, outra vantagem desta lente está na possibilidade de uma cirurgia a laser, na córnea, para correção de grau após a cirurgia de catarata. Vale frisar que a lente multifocal para implante não tem qualquer relação com a lente multifocal que conhecemos para os óculos. A dificuldade de adaptação com uma, não implica em obter o mesmo resultado com a outra.
Sem dúvida, a primeira preocupação do médico diante de uma cirurgia de catarata é permitir que o paciente ganhe em qualidade de vida, pois realmente passará a enxergar melhor.
*Leonardo Akaishi é médico oftalmologista e dirigente do HOB
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